O ano de 2026 será crucial para o professor, ficcionista, poeta e ensaísta Carlos Newton Júnior. É o período em que pretende reduzir o ritmo de outras atividades e dedicar-se a escrever a biografia de Ariano Suassuna, que terá seu centenário comemorado em 2027. Um trabalho que vem sendo esperado com ansiedade por pesquisadores e admiradores do escritor paraibano. Mas antes de ter a “vida” de Ariano nas mãos, o leitor pode se contentar com uma obra que também mostra muito do autor do Auto da Compadecida: pode se debruçar sobre "Lições de Realismo Esperançoso - A Sabedoria e o Riso de Ariano Suassuna" , lançado recentemente, com organização e seleção de Newton Júnior, e desenhos e pinturas de Manuel Dantas Suassuna.
Com capa dura, edição impecável e a bela e característica arte de Manuel Dantas Suassuna ilustrando os verbetes, o livro é uma pequena reunião do pensamento de Ariano, acessível para os que o conhecem muito ou para os que querem entendê-lo. A edição reúne textos de entrevistas dadas pelo paraibano, pensamentos resumidos sobre vários temas, e comentários sobre algumas frases que lhes foram atribuídas, mas que não são deles. Segundo Newton Júnior, a maioria delas, citações feitas nas muitas palestras e aulas-espetáculos realizadas pelo escritor, que com o passar do tempo acabaram sendo associadas a ele. Um exemplo? “Eu não troco meu oxente pelo o.k de seu ninguém”.
O próprio Newton Júnior explica a lógica do livro. “A intenção não foi propriamente a de estabelecer o que foi dito por ele e o que não foi, mas a de apresentar uma espécie de súmula do seu pensamento, da sua visão de mundo, chamando atenção, ainda, para o fato de que não são dele algumas das frases a ele atribuídas na internet, a exemplo da recorrente “eu não troco o meu oxente pelo o.k. de seu ninguém”, na verdade um mote de cantoria de Oliveira de Panelas. Ariano, como todo grande escritor, era um grande frasista; era, ainda, um grande contador de casos engraçados, de maneira que muitas das suas frases são tiradas divertidíssimas sobre assuntos os mais variados. Frases que divertem, mas também ensinam. Muitas vezes, por trás de uma frase risível, encontra-se uma verdade incômoda.”
Vários temas resumidos, em pequenas frases, ajudam a formar uma imagem maior de Ariano. Na seleção, pode-se conferir opiniões sobre personagens históricos, arte, escritores, cinema, cultura de massa, política, música baiana e sobre o Movimento Armorial, obviamente, sobre o qual afirmou: “Hoje, no Nordeste, o Movimento Armorial serve de ponto de referência, nem que seja para ataques e discordâncias.”
Newton também selecionou impressões do autor sobre seus personagens e fazer artístico. Em entrevista a Marilena Felinto, para a "Folha de S.Paulo", Ariano derramou-se em defesa de João Grilo ("Auto da Compadecida"). Ao ser perguntado se ele era um herói sem caráter, foi enfático. “Um camarada que vence a fome, a injustiça, a opressão, enfrenta os poderosos na pessoa de Antônio de Moraes, enfrenta a aristocracia rural sertaneja, enfrenta a burguesia urbana sertaneja, através do padeiro, enfrenta a Igreja, enfrenta o padre, enfrenta o bispo, o sacristão e enfrenta até as potências celestes, com quem ele dialoga de igual para igual, Então, se ele é sem caráter, eu não sei quem é que tem caráter não.”
Como de costume, alguns depoimentos de Ariano são polêmicos. Falando sobre música baiana, em entrevista a Gerson Camarotti, da "Revista Veja", em julho de 1996, não aliviou para Caetano Veloso, Gilberto Gil e cia. “Música baiana é Caymmi. Axé music é a falsa Bahia, assim como tropicalismo.” E sobre a MPB foi enfático. “Se nós gastarmos a palavra gênio para nos referirmos a qualquer autor da MPB, qual palavra iremos usar em relação a Beethoven?”
Ao tecer seu “autorretrato” não economizou palavras. “Tenho dentro de mim um cangaceiro manso, um mentiroso, um palhaço frustrado, um professor e um profeta e muitos doidos.”, afirmou ao escritor Marcelino Freire em 2006.
A junção desses recortes que mostram a personalidade marcante e incomum de Ariano, é uma boa opção para os que querem aprender sobre ele ou apenas se entreter. O livro, apesar de não ter a densidade de outros trabalhos feitos por Newton Júnior, é uma delícia para qualquer tipo de público. Além de moldar um retrato preciso de quem foi e o que pensava o mestre paraibano.

Autoridade
Livros como esse conseguem ter esse sabor e inventividade, graças à expertise do organizador. Afinal, Newton Júnior é considerado a maior autoridade nacional sobre o Movimento Armorial e Ariano Suassuna. Ele não só vem estudando o tema há décadas, como usufruiu da intimidade do seu principal expoente, com acesso irrestrito aos seus escritos, documentos e à convivência próxima com o homem que foi uma espécie de mestre, mas também amigo.
“Tenho grandes recordações e muitas histórias (vivenciadas com Ariano). Algumas delas estarão na biografia dele, que pretendo escrever. A ideia é lançá-la em 2027, ano do centenário do seu nascimento. Já tenho acordo com a Editora Nova Fronteira e muitas notas, só preciso de sossego para me dedicar ao trabalho ao longo de 2026. É uma promessa que fiz a mim mesmo, e espero que tenha tempo, engenho e forças para honrá-la.”, diz Newton Júnior, que ao ser questionado sobre histórias íntimas e engraçadas que vivenciou com Ariano, limitou-se a manter segredo. Prova de que vem guardando a sete chaves os detalhes do livro.
Em seus textos - a exemplo de "O Pai, o exílio e o reino: a poesia armorial de Ariano Suassuna" (1999) e "Movimento Armorial: regional e universal" (2007), só para citar alguns dos seus muitos livros - o crítico destaca não apenas a genialidade literária de Ariano, mas também sua ambição estética de criar uma arte brasileira erudita, sem renunciar aos signos da cultura popular. Newton demonstra como o escritor paraibano reelabora o Romanceiro Ibérico, o barroco e o bumba-meu boi transfigurando-os numa obra que é, simultaneamente, local e universal.
Além de pesquisador, Newton Júnior tornou-se uma espécie de “curador” informal da memória de Ariano. Organizou edições comentadas, participa de eventos, coordenou estudos e atuou em projetos que mantém viva a dimensão estética e ética de Suassuna.
O diálogo que estabelece entre tradição e contemporaneidade é um dos pontos mais fortes da obra de Newton Júnior. Ele consegue explicar Suassuna para as novas gerações sem diluir sua complexidade. Em seus ensaios o Armorial deixa de ser apenas um movimento artístico da década de 1970 e passa a ser compreendido como uma visão de mundo, um conjunto de princípios éticos, estéticos, filosóficos que continuam a ressoar hoje, especialmente em um país em constante busca de identidade.
Carlos Newton Júnior é também poeta, com vários títulos, entre eles "Do Outro Lado do Tempo", lançado em dezembro passado. Neste livro o autor se move entre a poesia, a memória e o pensamento crítico, reafirmando uma marca central: a escrita como gesto de escuta - do passado e da tradição de vozes que continuam a reverberar no presente. Também é de sua autoria Canudos: poema dos quinhentos (1999).
Trajetória
O escritor e pesquisador nasceu no Recife, em setembro de 1966. Mas o trabalho do pai o fez movimentar-se por diversas cidades brasileiras durante a infância e juventude: passou períodos em Natal, Salvador, Campo Grande e São Paulo. “Isso fez de mim um desenraizado.”, conta.
“Moro atualmente no Recife, mas não me sinto apegado à cidade como a maioria de meus amigos que nasceu aqui. Tenho também uma relação muito forte e afetiva com a região do brejo paraibano.”
Apesar das muitas andanças, lembra que sempre foi um bom aluno, apesar de não ser um grande leitor, uma vez que os pais - Carlos Newton e Vera Lúcia - não tinham esse hábito. “Quando entrei na universidade, ainda não havia sido despertada em mim a paixão pela leitura. Isso é algo que devo a Ariano. Ele dava aulas citando livros. Aos 17 anos, eu percebi que não havia lido praticamente nada e fui anotando os livros que ele citava para procurar na biblioteca da universidade. No curso de História, comecei a ler muitos romances históricos. Aí não parei mais de ler literatura, incluindo a literatura dramática, peças de teatro. O teatro é excelente para se adquirir cultura literária em pouco tempo, pois você leva pouco mais de duas horas para ler uma peça de Shakespeare, diferentemente de um romance de Tolstói, que exige sua concentração por vários dias. Sou absolutamente apaixonado por literatura. Vou pouco ao cinema, a espetáculos de música e dança, mas não passo um dia sem ler literatura. Reservo duas a três horas do meu dia para a leitura, são horas de absoluta felicidade.”
Os autores que acompanha? Muitos. “ Os clássicos nunca envelhecem, por isso os releio sempre: Homero, Tolstói, Dostoiévski ... Gosto muito de romances históricos, sobretudo os de Marguerite Yourcenar e Maurice Druon. Considero "Criação", de Gore Vidal, uma obra-prima. E sou leitor compulsivo de memórias: Pedro Nava, Gilberto Amado, Maria Helena Cardoso, Antonio Carlos Villaça, entre outros. De uns tempos para cá, tenho relido mais do que lido. Acho que isso ocorre naturalmente à medida que envelhecemos. Percebemos que não temos muito tempo a perder e o melhor é não arriscar as preciosas horas de leitura com obras que podem nos decepcionar. Nos primeiros meses da pandemia de Covid-19, o primeiro romance que li foi uma releitura: "A peste", de Camus, que eu havia lido pela primeira vez aos 18 anos. As angústias que vivíamos há 5 anos já estavam todas lá. Curioso é que ninguém associou — que eu saiba — o nome da cidade em que se passa a história de "A peste", “Oran”, na Argélia, com o nome da cidade chinesa em que o vírus da covid parece ter surgido, “Wuhan”.”, recorda.
Além do Movimento Armorial, do ponto de vista artístico de Newton Júnior diz que somente o modernismo brasileiro tem uma abrangência tão grande.
“Gosto muito dos modernistas, de um modo geral. Na poesia, Manuel Bandeira, Cecília Meireles, Carlos Drummond, Carlos Pena Filho, Jorge de Lima, João Cabral de Melo Neto, Janice Japiassu, Zila Mamede, Mário Quintana, Ferreira Gullar, Hilda Hilst e daí por diante. A lista é interminável. Dos nossos poetas vivos, creio que Alexei Bueno é o maior, e há anos acompanho a sua obra com interesse crescente. No romance brasileiro, Machado, José Lins do Rego e Guimarães Rosa, sem sombra de dúvida. A obra de José Lins é uma paixão tão forte quanto à de Ariano. São releituras frequentes. Gosto muito de Octavio de Faria, autor de Tragédia burguesa, creio que o mais extenso romance de toda a literatura brasileira, escrito em 15 volumes.” Na entrevista a seguir, acompanhe mais o pensamento e a trajetória do autor.
Sua mais nova obra Lições de Realismo Esperançoso - A sabedoria e o riso de Ariano Suassuna, pelo que eu entendi, foi uma forma de deixar claro quais frases foram ditas pelo autor, e quais foram incorporadas ao seu repertório. Pode dar exemplos?
A obra, na verdade, só é minha enquanto organização e apresentação. A ideia partiu da equipe da editora Nova Fronteira, que já havia publicado um livro análogo com frases de Nelson Rodrigues, organizado pelo crítico André Seffrin. A diferença, no caso, é que não usei frases de personagens de Ariano. A intenção não foi propriamente a de estabelecer o que foi dito por ele e o que não foi, mas a de apresentar uma espécie de súmula do seu pensamento, da sua visão de mundo, chamando atenção, ainda, para o fato de que não são dele algumas das frases a ele atribuídas na internet, a exemplo da recorrente “eu não troco o meu oxente pelo o.k. de seu ninguém”, na verdade um mote de cantoria de Oliveira de Panelas. Ariano, como todo grande escritor, era um grande frasista; era, ainda, um grande contador de casos engraçados, de maneira que muitas das suas frases são tiradas divertidíssimas sobre assuntos os mais variados. Frases que divertem, mas também ensinam. Muitas vezes, por trás de uma frase risível, encontra-se uma verdade incômoda.
Quanto tempo você levou pra preparar o livro? É comum que revisite sempre as obras de Ariano?
Pouco mais de um ano. O tempo para reler entrevistas e consultar alguns dos seus textos ensaísticos mais importantes. Enquanto organizava o livro, uma ou outra frase me vinha à lembrança, de maneira que também me vali do recurso da memória. A revisita à obra de Ariano é frequente, sim, uma vez que a venho organizando para a editora Nova Fronteira.
Como se deu sua primeira aproximação intelectual com Ariano Suassuna?
Ele foi meu professor de Estética, no curso de Arquitetura da UFPE. Gostei tanto da disciplina que cursei outras quatro com ele, em cursos diversos, na condição de “disciplina isolada”. Uma das coisas boas da universidade é você poder fazer disciplinas em áreas afins, para enriquecimento curricular. Ariano ensinava em vários cursos, tanto no Centro de Artes quanto no Centro de Filosofia e Ciências Humanas. Fui aluno dele também em disciplinas do curso de História, de Letras e de Filosofia.
Em que momento percebeu que o estudo sobre a obra dele se tornaria um eixo central de sua trajetória?
Isso ocorreu de modo muito natural. Quando terminei o curso de Arquitetura, ingressei numa pós-graduação em Teoria da Arte, na UFPE, e decidi escrever sobre o Movimento Armorial. Isso foi em 1989. Eu também cursei História, na Universidade Católica, no turno da noite, enquanto cursava Arquitetura na Federal. Eu já queria, então, ser professor de História da Arte. Na época, ninguém mais falava do Armorial, que era considerado algo do passado. E, no entanto, os artistas ligados ao movimento continuavam produzindo, seguindo os mesmos princípios poéticos defendidos por Ariano e realizando obras de grande valor estético, a meu ver. Depois, fiz um mestrado, trabalhando sobre a poesia de Ariano, ainda hoje a parte menos conhecida de sua obra. Finalmente, um doutorado, investindo no seu universo armorial a partir do Romance d’A Pedra do Reino. Tudo isso com a vantagem de poder dialogar com o autor e consultar o seu arquivo pessoal.
Você se tornou uma das vozes responsáveis por organizar, interpretar e transmitir a obra de Ariano às novas gerações. Qual é a maior responsabilidade de ocupar esse lugar?
A responsabilidade de fazer as escolhas certas, sobretudo quando se trabalha com textos inéditos. O caso do Auto de João da Cruz ilustra bem isso. Ariano deixou duas versões da peça, uma totalmente em versos (a versão original), escrita em 1950, e outra em prosa, provavelmente uma reescritura de 1957, posterior ao Auto da Compadecida, que é de 1955. Ele não costumava preservar versões originais quando reescrevia suas peças. Mas, no caso desta obra específica, guardou as duas versões. Quando organizei o seu Teatro completo, que saiu em 4 volumes, em 2018, coloquei apenas a versão em prosa, mais recente. E deixei a versão em versos para a poesia completa, considerando-a um “poema dramático”. A poesia completa só saiu no início de 2025, sob o título O pasto incendiado. Ele sempre me disse que, se um dia publicasse a sua poesia completa, usaria esse título, o mesmo de uma reunião de poemas que ele fez na década de 1950 e que não foi publicada, à época.
Seu estudo sobre o romanceiro Ibérico e suas raízes medievais foi essencial para compreender o Armorial. Em que medida essa pesquisa transformou sua própria leitura do Suassuna romancista e dramaturgo?
Não sou autor de nenhum estudo específico com esse título. Fiz referências ao romanceiro ibérico (e ao brasileiro) em alguns ensaios e artigos. Mas o estudo do romanceiro ibérico é fundamental para a compreensão de obras importantes da literatura brasileira, e não só de obras ligadas ao Armorial. Cecília Meireles, por exemplo, tem um livro de poemas chamado Romanceiro da Inconfidência, baseado no romanceiro ibérico. Também baseado no romanceiro ibérico, mais especificamente na História da donzela que vai à guerra, ou Donzela guerreira, João Guimarães Rosa escreveu o seu monumental Grande sertão: veredas. João Cabral de Melo Neto foi influenciado pelo romanceiro para compor Morte e vida severina. Isso para não falar de todo o teatro de Ariano, e não só do Auto da Compadecida. A partir desses exemplos, que não são os únicos, nota-se a importância do romanceiro para a moderna literatura brasileira.
Hoje, passados mais de 50 anos da criação do Movimento Armorial, o que ainda permanece vivo e o que merece ser repensado?
Com o Armorial, Ariano estabeleceu aquilo que se chama, em Filosofia da Arte, de poética, ou seja, um conjunto de princípios normativos para a realização de uma obra de arte — tendo em vista, no caso, a realização de uma arte brasileira, uma arte que expressasse a nossa visão de mundo e refletisse a nossa identidade enquanto nação singular. Princípios poéticos não têm prazo de validade, permanecem vivos enquanto houver artistas que os coloquem em prática. Mas é importante enfatizar que os princípios do Armorial não representam um caminho único e fechado para o artista. Cada artista interpreta e põe em prática os princípios de uma determinada poética se acredita nesses princípios, quer dizer, se esse conjunto normativo, em todo ou em parte, representa uma verdade para o artista, pois nenhum artista está obrigado a seguir princípio poético algum. Por outro lado, seguir uma poética que se considere válida não é garantia da realização de uma obra de arte de qualidade. A qualidade artística dependerá, sempre, do talento individual do artista. Se você comparar, no campo das artes visuais, os trabalhos de Miguel dos Santos com os de Manuel Dantas Suassuna ou os de Maria Queiroga, por exemplo, verá que são obras completamente diferentes entre si, e todas elas, de algum modo, seguem os princípios da poética armorial. Miguel têm um apego visivelmente maior, por exemplo, às nossas heranças africanas; Dantas e Maria também dialogam com essa vertente, mas com uma ênfase maior, talvez, em nosso passado pré-histórico, na pintura rupestre brasileira. E todos três são artistas indiscutivelmente contemporâneos. Maria, a mais nova entre os três, apresentou recentemente no Recife uma exposição com pinturas, instalações, fotografia expandida etc. O fato incontestável é que o Armorial produziu, em meio século, um conjunto de obras de enorme importância para a arte brasileira, desde a literatura do próprio Ariano,passando pela música de Antônio Madureira, pela dança de Maria Paula Costa Rêgo, pelas obras visuais desses artistas há pouco citados e de muitos outros. Essas obras nos ajudam a compreender melhor o Brasil, juntamente com outras tantas, realizadas a partir de poéticas distintas.
Há alguma faceta do Armorial — ou de Ariano — que o público em geral ainda não compreendeu plenamente?
Talvez esta à qual acabo de me referir, ou seja, de que a poética armorial é mais uma direção a ser seguida do que um caminho previamente traçado. Cada artista cria o seu próprio caminho, mesmo que siga a mesma direção de outros, que vieram antes dele.
Em seu papel de editor e organizador de textos de Suassuna, qual foi o maior desafio em lidar com manuscritos, variantes e inéditos?
No caso dos manuscritos, tive pouca dificuldade, pois entendo bem a caligrafia dele. Nas variantes, a maior dificuldade é estabelecer a mais recente, pois muitas vezes encontramos variantes sem datação definida.
O que Ariano lhe ensinou — direta ou indiretamente — sobre ética, estética e o papel do artista na sociedade?
Ensinou-me que o artista não deve nunca procurar o sucesso, e sim o êxito. O sucesso é passageiro, o êxito é o sucesso alcançado ao longo do tempo. O artista deve procurar expressar o seu universo interior, ser verdadeiro consigo mesmo, ainda que a sua obra não desperte, a princípio, interesse do público.
Existe algum episódio pessoal ou intelectual que resuma, para você, o espírito do “reinado armorial” que Ariano buscava construir?
Não acho que Ariano tenha procurado construir um “reinado armorial”, a não ser que a expressão queira significar o universo mítico e poético dele próprio. Todo artista verdadeiro constrói um universo peculiar, que é só dele. Não se pode exigir do artista que expresse algo alheio ao seu universo. Veja o caso da obra teatral de Nelson Rodrigues. Seria inimaginável exigir que Nelson Rodrigues escrevesse uma peça ambientada no sertão nordestino, ou, pelo contrário, exigir de Ariano uma peça ambientada no subúrbio carioca. A grandeza do moderno teatro brasileiro encontra-se justamente no fato de que contou com as visões de mundo de vários dramaturgos geniais, a exemplo desses dois.
Lições de Realismo Esperançoso - A sabedoria e o riso de Ariano Suassuna
Organização e seleção: Carlos Newton Júnior
Editora Nova Fronteira
154 páginas
R$ 69,90