Ney Anderson lança Apocalipse Todo Dia nesta sexta-feira

Livro traz minicontos que transbordam situações inesperadas, repletas de horror, violência, desespero. No seu segundo livro, autor recorre a histórias para tirar o leitor do comodismo

No prefácio do livro, o escritor Marcelino Freire avisa:
No prefácio do livro, o escritor Marcelino Freire avisa: "Tudo é matar ou morrer. Ney pinta e borda. Sem dó. Com graça (e desgraça).”

Nesta sexta-feira, 29, o escritor Ney Anderson lança seu segundo livro, Apocalipse Todo Dia, uma coletânea de minicontos que, apesar de curtos, revelam potência e violência, uma tristeza e desassossego que esgotam os personagens, mergulhando no caos urbano, na surpresa, nos medos mais visíveis - e principalmente nos invisíveis - do cidadão. O título, certamente, não foi dado por acaso. O Recife mostrado por Ney Anderson é sombrio e implacável. 

Nos cerca de 60 contos, Anderson explora um Recife inverso da solar e fluida cidade saudada por poetas e escritores que exaltam suas pontes, rios e belezas. Nas narrativas curtas, algumas menores que um texto de Instagram, o autor explora todo assombro da metropolis. Seja os involuntários seja os que as consome dia após dia. Um réveillon que começa glamouroso e acaba com corpos na areia. Uma manhã de sol na praia, que finda com tubarões atacando banhistas. Uma esposa que mata o marido ao flagrar uma traição. Um caminhão que atrapalha os sonhos de um casal que acabara de se reconciliar. Relatos que deveriam ter um final feliz, mas que Ney Anderson faz questão de dotar-lhes de um desfecho trágico. E de afirmar que nada está sob controle. Muito pelo contrário.

Além da violência e do imprevisível, do que não pode ser previsto, outra marca na obra do autor é a solidão, a ideia da velhice e do esquecimento batendo à porta. Relatos de suicídios se insinuam no meio das narrativas violentas, tão ou mais macabras do que elas. Como a jovem que se joga de um prédio e vê como última imagem o esplendor do Capibaribe. Ou da idosa agonizante que observa o veneno entrar pelo cateter e se arrepende. Ou da drag que dá um tiro na cabeça, na frente de todos, encenando sua maior e mais dramática performance, em plena rua do Hospício.

Apocalipse Todo Dia , portanto, é um trabalho que mostra uma cidade habitada pelo desespero, a dor dos que, subitamente, perderam tudo. Ou que estão prestes a perder. A violência que transita não só no Recife, mas em todas grandes metrópoles. Tudo isso recheado com uma linguagem que mescla vários elementos e estilos: o clima gótico, sombrio, o sobrenatural, o banal, o imprevisível. O  escritor Marcelino Freire, que assina o prefácio do livro, resumiu-o com concisão.. “Tudo é matar ou morrer. Ney pinta e borda. Sem dó. Com graça (e desgraça).”

Em sua nova obra Anderson também radicaliza o estilo brutalista, visto com frequência nas páginas do escritor Rubem Fonseca, que forja a violência sem meias palavras, sem que haja nexo, mostrando que ela existe apenas porque está ali, à disposição, ao acaso, sempre à espreita. Também lança mão do mestre Edgar Allan Poe, que sempre traz uma névoa sobrenatural nos seus escritos.  Mas Ney Anderson nega influências de ambos nos seus textos. E afirma que o pernambucano Raimundo Carrero é o autor  que mais leu, que mais admira e o que mais influenciou seu estilo. 

 “Chega um tempo na vida do leitor e, posteriormente, do escritor, que essas coisas acabam sendo apenas fumaça do passado. Influências, claro, que serviram para a construção do autor. Mas, talvez, não seja mais esta grande “muleta de influências” para o que ele produz.”, explica, afirmando que se tiver que nominar escritores que moldaram sua leitura e forma de ver a literatura, eles seriam o pernambucano Raimundo Carrero, que classifica de “meu grande mestre, o autor que eu mais lí na vida.”.

Em conversa com a Pernambuco, o autor detalha o que lhe motivou a escrever Apocalipse Todo Dia:  “Eu tiro essa inspiração das ruas, da observação do dia a dia. Gosto muito de caminhar  pelo centro do Recife e observar as coisas que acontecem. Mas não apenas no Recife. Qualquer lugar pode me servir de matéria-prima. Sobretudo os locais mais urbanos, caóticos.”, diz Ney Anderson, que completa. “Mas não é apenas “observar por observar” para extrair algo gratuitamente. Tento criar um clima para a criação de determinadas histórias que me vêm à mente, com situações que possam se tornar ficção.”.

Ele afirma, ainda, que sua literatura é baseada no real. “Mas não nesse real cem por cento verossímil. É apenas uma base mesmo para a ficção poder pulsar de forma independente. É uma realidade vista de um prisma caleidoscópico… E aí entra tudo: o gótico, o terror, o non sense, o trágico e tantos outros aspectos. Porque a vida é assim, existe sob diversos pontos de vista e acontecimentos. Uns bons. Outros nem tanto. No final das contas, eu tento criar personagens e histórias vivas, que incomodem o leitor do ponto de vista da reflexão que o conto pode causar. “

A obra foi lançada na edição deste ano da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) e vai ter novo lançamento em Olinda, na sexta, dia 29 de agosto. Ney Anderson nasceu em Recife-PE, em 1984. É jornalista, escritor, crítico literário e compositor. Faz parte da assessoria de comunicação de Fernando de Noronha. É autor do livro O Espetáculo da Ausência (2020) e mantém desde 2011 o site literário Angústia Criadora (www.angustiacriadora.com). 



Serviço

Apocalipse todo dia - Ney Anderson

Onde : Casa Estação da Luz – Rua Prudente de Morais, 313, Carmo

Data : Sexta-feira,  29 de agosto

Horário: a partir das 19h

Preço: R$ 60