Máximo vigor do lirismo em Rodrigo Garcia Lopes

Uma bonita expressão que caiu em desuso serve para definir meia dúzia de autores: homem-orquestra. É nela que pode pensar alguém ao observar a trajetória de Rodrigo Garcia Lopes. Não a usamos no sentido literal do dicionário – “Músico ambulante que, com a boca, as mãos, os pés e a cabeça, toca vários instrumentos ao mesmo tempo.” – e, sim, no metafórico, dos vários talentos: de poeta, de músico, de tradutor, de ensaísta etc.

Quem é músico e tradutor não raro vê as suas obras como poeta, chamando menos atenção. Seria o caso de RGL? O próprio autor e seus leitores mais abalizados responderão com maior precisão à pergunta. Aqui nos ocupamos de destacar o poeta, o conjunto de sua poesia, e dizer que vale a pena lê-lo pelas razões que a seguir se deslindam.

Talvez se chamássemos simplesmente RGL de Poeta e o resultado do seu trabalho de Virtude (ambas as palavras sublinhadas segundo sentido grego arcaico) abordássemos da melhor forma o que ele faz. Sim, cabe destacar, de novo, a ideia de fazer, porque é exatamente este o sentido da Poesia. Coisa que, aliás, recuperou, com sabedoria, Borges ao batizar um seu volume de versos de El Hacedor.

A Kotter Editorial publicou os Poemas Coligidos, que reúne a produção de RGL por quase 40 anos. Distribuída em mais de 600 páginas.

O volume é bem-cuidado, o que significa sistematicamente realizado. Pouco mais de 500, na verdade, são as consumidas com os poemas, a partir da 545, temos a parte crítica, bibliográfica e biográfica.

Embora as afinidades eletivas estejam bem visíveis, importa menos isto, e mais perceber a riqueza de temas, de ritmos, de tons, de dicções na poesia de Rodrigo. Sua arte poética explicita um domínio consciente – de virtuoso, mesmo, como já se observou. Os versos de estruturas tão variadas, que vão desde breves heranças líricas do concretismo ao poema-piada modernista, a articulação da canção. Na verdade, as melopeias, fanopeias e logopeias poundianas estão bem vivas. Não faltam sequer exercícios em língua estrangeira, como um poema em alemão, diversos em inglês, outro com o título em catalão etc.

Há um poema sobre Nova York. Não é Garcia Lopes inferior a García Lorca e seu Poeta en Nueva York, pois maneja o mesmo vigor do verso que desnuda o desencanto e a melancolia:

a serpente das ruas arrasta seus ruídos, raps & neons (...)
Nenhuma chance para Shelley, Keats,
nenhum haicai possível por aqui —
a não ser os gritos inumanos, os pensamentos anônimos, os urros urbanos
de um homem que acabou de enlouquecer.