Mundurucu sai da clandestinidade

Contar a história a partir do olhar dos derrotados não é exatamente uma novidade, mas acontece tão pouco, que frequentemente parece original. Não é regra essas perspectivas buscarem justiça ou reparação, mas costumam colaborar no melhor entendimento sobre os fatos em questão, de uma maneira menos monolítica. Novos olhares sobre histórias “conhecidas”.

Nos quadrinhos, Marcelo D’Salete é exemplo maior desse tipo de vertente com seu já clássico Angola Janga, de 2017, que contou a derrocada de Zumbi dos Palmares pela ótica dos escravizados. Misturar fatos históricos com ficção, muitas vezes como forma de superar a falta de documentação, é um recurso comum em trabalhos dessa natureza. Eles cumprem a função de entreter, informar e até mesmo educar.

O mais novo lançamento do selo Cepe HQ, previsto para o primeiro semestre deste ano, segue esse caminho. Mundurucu na Confederação do Equador narra, como o título evidencia, o papel do major do batalhão dos pardos na Confederação do Equador de 1824, Emiliano Mundurucu, também ele, homem de pele escura. Narrada a partir do ano seguinte ao levante, já com o movimento sufocado, a HQ apresenta o personagem na clandestinidade e perseguido. Sua história é apresentada em flashbacks, costurando com os eventos presentes: a sua condição de perseguido pelo regime de D. Pedro I, sempre implacável contra dissidências.



O roteiro do jornalista e escritor Paulo Santos tem ritmo cinematográfico, favorecendo muito o trabalho da arte. “A História de Pernambuco é riquíssima não só em eventos políticos de grande expressão quanto em personagens interessantíssimos. Mas, infelizmente, é muito pouco conhecida.”, enfatiza o autor.

A quadrinização foi feita a quatro mãos. Anos atrás, o ilustrador pernambucano Luciano Félix foi procurado por Libório Melo, no sentido do primeiro finalizar os esboços do projeto que agora a Cepe Editora imprime. “Atuei como um arte-finalista”, esclarece Félix. Para ele, a qualidade do roteiro e da adaptação eram impecáveis. “Preservei tudo. Enquadramentos, sequência, concept dos personagens. Estava tudo muito bem-estruturado por Libório”, revela.

Libório faleceu em 30 de janeiro (Dia do Quadrinho Nacional) de 2020 e não pôde ver o livro concretizado. Ter a sua quadrinização respeitada foi também uma forma de homenageá-lo, ainda que inconscientemente. De fato, Mundurucu é um livro de leitura muito fluida. A narrativa está muito bem-concatenada. Tem ritmo que favorece o desenrolar dos acontecimentos e um desenho ancorado numa bela reconstrução iconográfica (outro elemento de valor presente na HQ).

Walter Benjamin nos ensina em seu conceito sobre escovar a história a contrapelo, a valorização dos discursos minoritários frente aos discursos dominantes. Para ele, é importante nos atentarmos, sobretudo no plano cultural, a não reproduzir padrões hegemônicos. Mundurucu é o tipo de projeto que traz à luz um personagem de muito relevo em nossa história, mas pouquíssimo conhecido. Se seu apagamento foi intencional ou não, ganha um forte contraponto com essa publicação. Saber mais sobre Emiliano Mundurucu resulta em espanto e admiração. Razão de sobra para mergulhar nessa HQ.