Portugal despede-se do bom amigo dos livros Eugénio Lisboa

Portugal despede-se nesta quarta-feira do poeta Eugênio Lisboa, morto nesta terça (9) em Lisboa, vítima de câncer. Nascido em 1930 na então Lourenço Marques, hoje Maputo, capital de Moçambique, o também ensaísta, crítico literário e professor era considerado o maior especialista na obra do português José Régio, um dos grandes nomes da literatura portuguesa.

Aos 93 anos, Eugênio Lisboa produziu até o fim da sua vida. Seu último livro, Soneto - Modo de usar, foi lançado no início de abril de 2024 pela editora Guerra & Paz. Em um dos poemas da obra, "Perder um amigo", escreve que “quando nos morre um velho amigo, seja ele um ser humano ou um bicho, é com sairmos de um bom abrigo”.

Eugênio Lisboa mudou-se de Moçambique para Portugal em 1947 para estudar Engenharia Eletrotécnica, mas foi nas engrenagens da poesia onde se realizou.

Escreveu mais de duas dezenas de livros, entre poesia, ensaios e crítica literária, incluindo antologias de autores portugueses publicadas no Reino Unido, onde foi conselheiro na Embaixada de Portugal, em Londres, entre 1978 e 1995.

Em reconhecimento ao seu percurso profissional, foi condecorado pelo Estado Português em 1980 com a Ordem do Infante D. Henrique. Desde 2016 é também nome de um prêmio literário em sua Moçambique natal, destinado a revelar novos autores com obras ainda inéditas.

Professor de literatura, destacou-se pela contestação aos cânones, característica sublinhada na nota de falecimento divulgada pelo presidente português, Marcelo Rebelo de Sousa, destacando ainda o trabalho do poeta, crítico e ensaísta na valorização de autores menos conhecidos.

Este esforço pela divulgação da literatura também foi ressaltado em uma postagem no site da Unesco, onde assumiu entre 1996 e 1998 a presidência da Comissão Nacional do órgão em Portugal, responsável pela promoção literária na rede de escolas públicas no país. Ainda nesta linha, publicou em 2021 o livro "Vamos Ler!", dedicado a resgatar os leitores mais relutantes.

Nos últimos anos de produção literária, porém, Eugênio Lisboa cruzou a poesia com os acontecimentos contemporâneos do mundo, como a pandemia, em Poemas em Tempos de Peste (2020) e o recente conflito na Europa, entre russos e ucranianos, em Poemas em tempo de guerra suja (2022), todos também editados pela Guerra & Paz.

A nota divulgada à imprensa na manhã desta terça-feira pelo hospital Curry Cabral, onde estava internado em Lisboa, informa que Eugênio Lisboa morreu vítima de doença oncológica. O poeta deixa um filho, o crítico de música João Lisboa.