Poesia múltipla, densa e cosmopolita de Rodrigo Garcia Lopes

Se a autobiografia de um poeta é sua própria poesia, como escreveu o russo Ievguêni Ievtuchenko, o brasileiro Rodrigo Garcia Lopes apresenta uma extraordinária trajetória de vida e arte, contada por seus próprios escritos e pelo testemunho de companheiros de ofício como Paulo Leminski, Armando Freitas Filhos, Antonio Cícero, Moacyr Scliar, Silviano Santiago, Maria Esther Maciel, José Paulo Paes, Wilson Bueno, Diana Junkes, José Kozer e Maurício Arruda Mendonça, entre muitos outros.

O recém-lançado Poemas Coligidos (1983 – 2020), volumosa edição de 616 páginas (editora Kotter), reúne seus sete livros de poemas publicados até agora (Solarium, Visibilia, Polivox, Nômada, Estúdio Realidade, Experiências extraordinárias e O enigma das ondas), além de rica fortuna crítica.

Ao longo de quatro décadas, Rodrigo publicou também o romance O trovador, gravou dois CDs, em que revela seu lado de compositor, coeditou a revista Coyote, por 12 anos consecutivos, escreveu ensaios, atuou no jornalismo cultural e traduziu poetas de língua inglesa e francesa, como Arthur Rimbaud, Laura Riding, Walt Whitman, Sylvia Plath e Guillaume Apollinaire (previsto para maio pela Cia das Letras).

Nesta entrevista, ele faz um breve balanço da sua trajetória, fala da importância do trabalho de tradutor em sua atividade criativa, das suas relações com a canção e das mudanças ocorridas no mundo nas últimas quatro décadas.

A reunião de sua poesia escrita desde 1983 é uma ótima oportunidade para avaliar em perspectiva a obra de um dos grandes poetas contemporâneos.

Poemas Coligidos abrange um período de 37 anos. Inevitável perceber a intenção de fazer um retrospecto desta longa trajetória. Neste sentido, qual o balanço que você mesmo faz de sua poesia? Valeu a pena tanto trabalho?
A reunião dos sete livros permite uma visão panorâmica dos vários caminhos, temas, preocupações, experimentações, linguagens, dicções e formas de uma obra em progresso. Confesso que é uma sensação boa vê-los todos reunidos. Recoloca em circulação livros que estavam há muito esgotados. É o testemunho do meu mergulho na arte da poesia. Permite a mim mesmo voltar e olhar para cada livro, ou poemas específicos, e perguntar: o que eu estava buscando, vivendo, lendo quando escrevi isso? Cada livro tem um conceito, cuja pista é dada a partir dos títulos. Cada poema é uma foto de um instante único e irrepetível. Se valeu? Creio que os leitores é que poderão julgar. Eu entreguei o meu melhor.

Há muitas diferenças entre o mundo em que você começou a escrever e o mundo atual?
Ah, sim! Eu era jovem, cheio de sonhos, de expectativas, inclusive quanto à literatura. Não havia nenhum desencanto pelo mundo, nenhum ceticismo, ao contrário. Muitas coisas mudaram no mundo, poucas para melhor e muitas para pior. Ele se tornou um lugar cada vez mais perigoso e mais inóspito para a poesia. Em 1983 não havia internet nem computadores, nem redes sociais, IA, nada disso. Dava para contar nos dedos as editoras brasileiras. Ter um primeiro livro de poemas publicado era uma façanha, uma dificuldade! O acesso às informações (de todo tipo, inclusive literárias), formas de publicação, eram muito mais limitados. Era também um tempo em que as obras ainda eram julgadas mais por seu valor estético, e nem tanto por defender uma pauta ou pelo número de likes em redes sociais. Assistimos uma marginalização do estético hoje. Para mim, poesia é uma arte, não autoajuda, nem entretenimento. É uma forma de conhecimento, via linguagem. Também ainda não havíamos virtualizado nossos contatos humanos, nem estávamos tão conscientes de problemas como o aquecimento global, a destruição do planeta e os genocídios que nunca cessam, hoje noticiados em tempo real.

Em seu trabalho há uma variedade muito grande de linguagens: do poema curto, com nítidas influências orientais (japonesas e chinesas) ao poema longo e fragmentário. Quais seriam as principais linhas de forças estilísticas que nortearam seu trabalho ao longo do tempo?
A investigação da linguagem (mais precisamente a relação entre ser humano-mundo-linguagem) tem sido o cerne do meu trabalho, que abrange poesia, ficção, tradução, música, ensaio, crítica, jornalismo, editoração, teatro e cinema. Creio que a poesia (ela mesma uma espécie de língua estrangeira) pode explorar, em profundidade e em múltiplos registros, as complexidades da existência contemporânea. Em vários momentos ela se torna uma crítica (muitas vezes pelo viés da paródia e do humor), mas não de forma panfletária, prosaica, como está em voga no Brasil. Acho também que minha poesia é marcada por um profundo sentido de lugar, conforme definido por antropólogos: “as maneiras experienciais e expressivas pelas quais os lugares são conhecidos, imaginados, desejados, mantidos, lembrados, vocalizados, vividos, contestados e disputados”. Todos os lugares por que passei ou em que vivi tiveram um impacto direto na minha escrita.

Além dos livros publicados, você também gravou CDs e se apresentou em palcos, com poemas musicados (mostrando sua verve de compositor). A poesia no papel não basta para atender a todas as suas necessidades criativas?
A canção e a música são universos que gosto de explorar desde a adolescência, essa interseção fascinante de palavra-voz-música. Fazer uma canção, para mim, é ainda mais difícil do que escrever um bom poema. Não sou tão prolífico. Eu amo a música, tanto quanto a poesia. Não consigo imaginar um mundo sem Bach, Fauré, Debussy, Bill Evans, Miles Davis, Chico, Gil, Jimi Hendrix e tantos outros gênios. Até consigo imaginar um mundo sem poesia escrita, mas não sem música.

Em que medida o trabalho de tradutor influencia na sua própria poesia?
Bastante. É interessante que eu tenha começado a traduzir tão logo comecei a escrever poesia pra valer, por volta dos 16 anos, seguindo o conselho de Pound. Encaro a tradução não apenas como uma arte (o tradutor sendo o poeta do poeta, um intérprete no sentido musical), mas como uma forma de intervenção cultural na minha tradição literária (obrigado Pound e irmãos Campos). Sempre traduzi apenas o que amava, o que me desafiava. Além disso, vejo-a como um profundo exercício de alteridade, uma prática que me possibilita dialogar com outras identidades, sensibilidades, épocas e culturas. A tradução é uma atividade crítica e criativa, uma superleitura. É leitura, escrita e criação ao mesmo tempo.