Morre o escritor Luis Fernando Verissimo, aos 88 anos

O cronista e romancista gaúcho estava internado para tratar uma pneumonia e tinha Doença de Parkinson

O escritor Luis Fernando Verissimo morreu aos 88 anos, na madrugada deste sábado (30), em Porto, no Rio Grande do Sul. Internado desde 17 de agosto de 2025 na UTI do Hospital Moinhos de Vento, o cronista enfrentava uma pneumonia em estado grave, de acordo com boletim médico. Recebe “todas as medidas de suporte necessárias”, informa a equipe clínica 

O escritor deixa a mulher, Lúcia Helena Massa, três filhos e dois netos.A despedida ocorrerá no Salão Nobre Julio de Castilhos, na Assembleia Legislativa do RS, a partir das 12h.

A rotina de cuidados intensivos somava-se a um histórico médico significativo. Veríssimo convive com Mal de Parkinson e problemas cardíacos, além de ter sofrido um AVC em janeiro de 2021, quando escrevia uma crônica para o jornal O Globo. Passou por cirurgia na mandíbula em novembro de 2020 e teve recuperação lenta após o AVC Um ano depois, recebeu um marcapasso no coração, ampliando a complexidade do quadro clínico.

Verissimo tinha Parkinson e desde o AVC, segundo a família, enfrentava dificuldades motoras e de comunicação.

Ele entendeu o que ocorria ao seu redor, mas a fala foi profundamente afetada — fragmentada e limitada. Informações vindas do hospital indicam que sua comunicação cotidiana ficou restrita. Ele começou, então, a emitir palavras soltas — muitas vezes em inglês, idioma que aprendeu durante a infância nos Estados Unidos (1941‑1945) 

A troca repentina de idioma no discurso, embora inusitada, revela as complexidades da neuroplasticidade após danos cerebrais, além de lembrar sua passagem pela infância fora do Brasil. Esse detalhe sensível — sua fala reduzida e pontuada por palavras em inglês — tem sido interpretado por quem o visita como uma forma eloquente de resistência: mesmo com limitações, o escritor busca se comunicar, aproveitando fragmentos de memória verbal.

Ainda assim, apesar das limitações comunicativas, ele acompanhava o futebol, escuta jazz e lê jornais — gestos que revelam uma lucidez tocante, ainda que intermediada por gestos ou termos breves

Veríssimo nasceu em Porto Alegre, em 26 de setembro de 1936. Viveu parte da infância nos Estados Unidos porque o pai, o escritor Erico Verissimo, um dos maiores nomes da literatura nacional, autor de obras como O tempo e o vento, dava aulas de literatura brasileira nas universidades de Berkeley e de Oakland.

Informalidade do pai, Erico

Filho do renomado Érico Veríssimo, Luis Fernando construiu uma obra marcada pelo humor inteligente, personagens inesquecíveis — como Ed Mort, A Velhinha de Taubaté e O Analista de Bagé — e pelo talento de transformar o cotidiano em literatura afetiva 

"O pai foi um dos primeiros escritores brasileiros a escrever de uma maneira mais informal. E eu acho que herdei um pouco isso. Essa informalidade na maneira de escrever", disse sobre o pai.

A carreira começou no jornal Zero Hora, de Porto Alegre, onde começou como revisor em 1966. No Rio de Janeiro, trabalhou como tradutor.

O primeiro livro, "O Popular", foi publicado em 1973. Ao todo, Verissimo teve mais de 70 livros publicados e 5,6 milhões de cópias vendidas, entre crônicas, romances, contos e quadrinhos.

O escritor também escrevia colunas para os jornais "O Estado de S.Paulo", "O Globo" e "Zero Hora".

Discreto nos hábitos e nas declarações, Verissimo ainda vivia na casa onde cresceu depois do retorno ao Brasil. O imóvel no Bairro Petrópolis, em Porto Alegre, foi comprado em 1941 pelo pai.

O escritório onde Erico trabalhava é conservado intacto pela família. Luis Fernando tinha o costume de escrever em outro cômodo da casa. Metódico, só interrompia o trabalho quando a mulher, Lúcia, o chamava para o almoço. Já à noite, parava para assistir ao Jornal Nacional. Quando queria curtir seu estilo de música preferido, o fazia sem distrações. “Música é sentar e ouvir”, disse em entrevista em 2012.

O humor de contos e crônicas marcou sua obra. Entre os livros mais conhecidos criados por ele estão os de Ed Mort e outras histórias, de 1979, O analista de Bagé, de 1981 e A velhinha de Taubaté, de 1983. Também criou a tirinha As cobras, publicada na Folha da Manhã, nos anos 70. Comédias da vida privada, de 1994, deu origem à série da Rede Globo produzida durante os três anos seguintes.

A Companhia das Letras reuniu num box os romances de Luis Fernando Verissimo: O jardim do Diabo, O clube dos anjos, Borges e os orangotangos eternos, O opositor, A décima-segunda noite e Os espiões. Neles estão presentes o humor fino e irônico, além da temática que envolve uma mescla de gênero policial e questões do universo literário. 

Quando morou nos Estados Unidos, Veríssimo estudou no Roosevelt High School, em Washington. Foi lá que desenvolveu o gosto pelo Jazz e teve aulas de saxofone. Mas, por trás do saxofone e das páginas dos livros, se escondia um cara tímido.

"Minha timidez é... Por exemplo: tenho horror de fazer isso que estou fazendo agora: dar entrevista, falar em público e tal. Eu sempre digo que não dominei a arte de falar e escrever ao mesmo tempo, são duas coisas que se excluem, então é nesse sentido é que se manifesta a minha timidez", disse à RBS TV.

A economia nas palavras não se aplicava às máquinas de escrever e, depois, aos computadores. O autor tímido tinha muita coisa para falar. "Essa é uma das vantagens da crônica. A gente pode ser o que quiser escrevendo uma crônica".

A cada homenagem que recebia, como quando fez 80 anos, mais provas de que não precisava de longas conversas para arrancar uma risada. "Têm sido tão agradáveis as homenagens, inclusive da família, que eu tô pensando em fazer 80 anos mais vezes", brincou.

Em entrevista ao programa GloboNews Literatura, em 2012, ele falou sobre o seu conhecido comportamento introspectivo. Conhecido por respostas concisas em entrevistas, Luis Fernando Verissimo negou que fosse uma pessoa calada. “Não sou eu que falo pouco, os outros é que falam muito”.

Além do jazz e da literatura, o futebol era outra das paixões de Luis Fernando Verissimo. Mais especificamente o Inter, time ao qual declarou fidelidade em diversas oportunidades e que foi tema do livro “Internacional, Autobiografia de uma Paixão”. Em entrevista em abril de 2012, lembrou de seu jogo inesquecível, um clássico Gre-Nal, que também foi sua primeira partida em um estádio de futebol.

“Lembro a emoção de estar em campo. Só ouvia futebol pelo rádio. Ali, uma cerca nos separava dos jogadores. Dava para ver as feições, sentir a respiração deles. Eu estava vendo as cores do jogo, uma sensação completamente diferente. Nunca vou me esquecer também do cheiro de grama”, contou, sobre o Estádio dos Eucaliptos, antiga casa do Inter.

Cobriu Copas do Mundo desde 1986, edição em que lamentou a eliminação do Brasil nos pênaltis diante da França nas quartas de final - mais uma partida marcante, revela. Pelo Inter, listou outras tantas. Falava com satisfação da final do Brasileirão de 1975 e do tricampeonato invicto em 1979.

Sobre o título do Mundial de Clubes de 2006, vencido pelo Inter, escreveu a crônica “Não me acordem”, celebrada por colorados. “Vejo como o triunfo do Gabiru (autor do gol), o grande herói que era criticado. Algo meio melodramático. Foi um momento de sonho. Antes do jogo, o sentimento era: ‘Se perder de pouco, está bom’”, recordava.