Os mundos de Proteu e Anteu

Quem conhece um pouco da cultura dos gregos antigos sabe que Proteu diz bem dos mares e sua plasticidade e Anteu da terra e sua abalável fixidez. Neles, pode um leitor pensar ao inteirar-se da temática de Mar e Sertão, do historiador e diplomata Luiz Feldman, que a Topbooks acaba de lançar. Os dois domínios espaciais servem para estudar parte da cosmovisão de Joaquim Nabuco, Oliveira Lima, Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda sobre o Brasil.

Tão sugestivo e agudo, elegante e crítico, Mar e Sertão avança sobre o hálito do espaço e sua história. Essa expressão grifada parafraseia e inverte outra de Paul Zumthor, mas para frisar a sua mesma conclusão: tempo e espaço estão congeminados. Daí que nesse livro de Feldman enveredamos pelos caminhos avançados de algo mais que a Geografia e a História: o das mentalidades e as projeções do Poder e da Política.

Uma vantagem desse livro é que, partindo de delimitações deliberadas, não recai no esquematismo. Muito pelo contrário. Problematiza e esclarece tanto o aparentemente simples da territorialização quanto o composto/complexo dos seus transbordamentos. Oliveira Lima, Nabuco, Freyre e Buarque de Holanda são autores que divergem sobre um mar de coisas e um sertão de tantas outras. Mas terminam por concertar-se em pontos cardeais do “gigante pela própria natureza” e a cultura: o domínio do território e a invenção de identidades e caracteres.

Ao omitir o artigo – definido ou indefinido – no título do seu livro, Feldman formula uma generalização que representa uma dupla abrangência. Do autodescobrimento do Brasil e sua expansão. Não se trata de buscar entender o mar e o sertão, ou um mar e um sertão, mas o seu conceito, sua ideia, sua gama de sugestões e desdobramentos, metafóricos ou não, suas pautas e matizes. Não o mar absoluto dos literatos e poetas, tampouco o sertão de visionários, e, sim, o da realidade mesma tão indecisa e maliciosamente ambígua no Brasil.

Onde a canção popular e o cinema multiplicam a ideia de que o sertão e o mar podem trocar de lugar e de “ser”. Numa metamorfose não pensada por Ovídio.

O mar e o sertão do livro são mais que plurais: o genérico que pode ser específico e vice-versa. Ou como melhor afirmou o linguista Ioram Melcer, num diálogo epistolar que tivemos sobre o assunto: “A ideia do genérico, não devemos esquecer, é de uma escala, que até costuma revelar-se como circular – com o mais genérico amiúde sendo também o mais específico”. É o caso do Brasil, dos Brasis.

Sendo Mar e Sertão um livro de História/Historiografia, tem o seu tanto de Antropologia do espaço. Sem esquecer da “filosofia” esboçada de uma e de outra. Explicitada em quatro autores sobre os quais paira o espectro de um quinto – Euclides da Cunha. Um dos primeiros a perceber e traduzir, ainda que de modo algo tortuoso, o chamado Brasil Profundo.

Três pernambucanos e um paulista (de origem pernambucana) sintetizam o mar e o sertão. Nabuco e Freyre representam aquilo que podemos chamar do mundo de Proteu. Tão vivo no caso do Brasil, não somente por causa de um imenso litoral, e, sim, do colonizador português, transoceânico. O “nós” d’ O sentimento dum ocidental, de Cesário Verde: “Nós vamos explorar todos os continentes/ E pelas vastidões aquáticas seguir!” Oliveira Lima e Sérgio Buarque de Holanda são os “telúricos”, entretidos com os mundos de Anteu.

Há um gênero de livro que, descortinando mundos tão ricos, estimulam, por sugestivos e agudos na sua concepção e realização, vários sequenciamentos. É o caso de Mar e Sertão. Seria possível pensar em uma coleção inteira ou séries, antologias de “mar” e “sertão”, começando pelos sentidos da própria palavra sertão. Se literariamente o tema não se esgota, no âmbito das ciências sociais dá para cursos intermináveis, eventos etc.

O que dizer de uma obra como essa de Feldman que, nas suas 316 páginas, mais de 70 estão ocupadas com notas? É um feito de erudição e rigor. Nunca os quatro “cavaleiros” do sertão e do mar brasileiros são tratados pelo autor como “ilhas”, e, sim, em “contrastes e confrontos” uns com os outros e até consigo (servindo este termo tanto para os próprios autores quanto para as ideias do próprio Feldman, que não se limita a descrever e a citar Freyre, Oliveira Lima, Nabuco e Buarque de Holanda: posiciona-se, critica, indaga, aponta novos sendeiros. Igual processo verifica-se na maneira como situa o Brasil, não só como o “império britânico de si mesmo” do verso do irônico poema de João Cabral de Melo Neto citado em epígrafe, mas na sua relação com outros países. A começar pelos seus ex-colonizadores.

Nesse livro tão cheio de referências cuidadosamente trabalhadas, e tão especializado e dirigido a um nicho, é, pela forma como está escrito, “legivel”, prazeroso e estimulante a qualquer leitor inteligente. O curioso por perceber/entender melhor o Brasil, Portugal, sua história e de suas relações pregressas. Se o livro fosse “apenas” isso já estaria muito bem. Mas oferece mais. É original em sua interpretação. Somente para ficar em dois exemplos: mostra-nos a imaginação imperialista de Gilberto Freyre (nisto ampliando e melhorando algo notado por Eduardo Lourenço). Além disso, um pequeno grande “achado”: um opúsculo esquecido de Oliveira Lima, que contém lições válidas ainda para os dias atuais.

Portanto, quem se ocupe de ler Mar e Sertão poderá encontrar mais do que busca. Enxergará melhor o Brasil a partir de quatro dos seus principais autores. Investigados, interpretados, esclarecidos por um autor que integra aquela estirpe “nobre” dos diplomatas mais do que diplomatas.