Forma, imaginação e realidade

Cinquenta anos após sua primeira edição, o romance "Os homens dos pés redondos", de Antônio Torres, confirma que a literatura engajada só tem força quando não abdica da própria complexidade

Os homens dos pés redondos, o segundo romance de Antônio Torres, foi publicado pela primeira vez em 1973, quando ele tinha 33 anos de idade. Sua estreia se dera um ano antes, como o Um cão uivando para a Lua, que causou surpresas na crítica e no mercado, em uma época na qual esses dois universos se distinguiam mais um do outro.

Em 1979, Os homens dos pés redondos foi reeditado, com pequenas alterações feitas pelo autor e, recentemente, (pouco mais de meio século após a primeira edição), foi relançado pela editora Record, quando Torres completa 85 anos de idade.

Naquele 1973, os livros mais aclamados no Brasil eram As meninas, terceiro romance de Lygia Fagundes Telles (1918-2022), vencedor do Jabuti, em 1974, e Água viva, sétimo romance, ou “romance sem romance”, de Clarice Lispector (1920-1977). Essas duas obras demonstram tendências que servem para entender melhor a recepção d’Os homens dos pés redondos, de Antônio Torres: a tradição literária em Fagundes Telles e o “experimentalismo” ou roman-fleuve, de Lispector, características comumente atribuídas ao romance de Torres.

É curioso ver, agora à distância, como se via, naquela época, o romance.

Em O Globo, diz-se que o estilo de Torres era “transparente, perfeito, musical e cadenciado”, com ecos de Faulkner. Houve também quem denunciasse um experimentalismo intermitente e, às vezes, gratuito. A multiplicidade de opiniões dos resenhistas testemunham isso: cada qual encontra um romance diferente, de cunho político, mas nenhum o reduz ao chão do panfleto. Ao ler um mosaico de resenhas críticas, é possível enxergar melhor o alcance do livro, seus limites e suas pertinências, hoje.

Críticos como Rolmes Barbosa, (O Estado de S.Paulo, “Jorro de ar num círculo fechado”, 18/11/1973) apresentam o romance como resposta ao “conformismo” dos best-sellers nacionais. Reconhece evolução do autor em relação ao livro de estreia, elogia monólogos interiores e humor negro, mas aponta excesso de temas e uma certa falta de unidade até a metade da obra. Também reconhece a habilidade de Torres em criar um ambiente de “realismo mágico – ou ilógico”, sem aderir mecanicamente ao modelo latino-americano então em voga.

No Jornal do Brasil, em outubro de 1973, Norma Couri assina a resenha “Os pés doídos de um autor baiano”. Ela observa os personagens de Torres que “andam em redor de si mesmos”, como metáfora de vítimas de um passado esmagador e de um presente sem horizontes. Talvez se referisse ao Portugal e ao Brasil naqueles tempos. Fosse ou não fosse, era melhor não o dizer com todas as letras. Essa leitura, embora alinhada ao clima de opressão horizontal do romance, contrasta com outras percepções que enxergaram no livro, sobretudo, um exercício de fabulação. A crítica, como sugere o título de Norma Couri, liga as origens e a trajetória do jovem romancista, cita certo tom confessional/regional do autor; embora elogie a sensibilidade e força narrativa de Torres.

Outros apontam que Torres oscila entre a ambição de abarcar um “choque de raças”, alienação burguesa, frustrações pessoais e crítica ao Estado, tudo isso simultaneamente, por vezes com resultados desiguais.

O crítico e romancista Marcos Santarrita (1941-2011), no Primeiro Caderno do Jornal de Letras, no artigo “Dois romances”, de junho de 1974, elogiou o Torres “antiliterato”, que escreve com vitalismo e vigor, e defendeu que, justamente esse primitivismo (não confundir com primarismo) formal, protege o romance de cair no jargão da confissão narcisista. Aquela menção, já clássica, referida por Couri, do regional versus o universal também aparece na crítica de Santarrita. Não sabemos qual foi a primeira vez que essa relação se estabeleceu na literatura, ora empobrecendo o “regional”, ora o “universal”.

Entre a alegoria, a técnica e o engajamento

No conjunto, a crítica prenunciava o quanto o romance era mais do que produto de seu tempo. Mas a função da crítica não é profetizar. De fato, Antônio Torres, desde ali, apresentava um testemunho de como a literatura engajada podia ser incisiva sem perder a complexidade artística. Uma literatura que punha (e põe) o leitor diante das contradições do poder, da subjetividade e do próprio ato de narrar.

Seguindo com a recepção, algumas resenhas fazem o básico no elogio: “uma história inesquecível”. Outras atribuem a Torres o status de ficcionista já maduro, com excelente manejo e segurança da linguagem. Outros, ainda, comparavam a estrutura do romance com modelos “modernos” e o aproximavam de Ulisses, de Joyce, ou dos romances-rio, mais claramente dito: narrativas cuja técnica é o “correr à larga”, na tendência que notabilizara Clarice Lispector, citada antes. Esses resenhistas leem a experimentação de Torres como exemplos de controle técnico, sem ceder ao simples formalismo. Um deles afirma que o autor “não se deixa seduzir pelo canto de sereia de um experimentalismo gratuito”, posicionando-o acima de contemporâneos que teriam caído nos excessos. Isso porque não assistiram à literatura dos anos 2000 para cá, complemento eu.

Há vozes mais ponderadas. Alguns resenhistas apontam insistências descritivas e resquícios naturalistas, como pequenos senões que, embora “até certo ponto necessários”, diminuiriam a fluidez formal do livro. Outros chegam a observar que o romance ainda não equilibra inteiramente forma e espírito, acusando-o de certa superabundância temática, ambição considerada precoce para um segundo livro, e de uma preocupação de denúncia social que, em alguns trechos, comprometeria o fluxo narrativo.

Havia quem visse no romance um domínio seguro das técnicas modernas. Quem o considerasse irregular. Quem exaltasse a imaginação inventiva. Quem se desagradasse das partes mais realistas. Esses movimentos discordantes ajudam a iluminar o livro não como unanimidade, mas como acontecimento literário, no sentido de que provoca discordâncias frutíferas, próprias do que sobrevive ao tempo. No caso de Torres, um escritor em pleno processo de consolidação, movendo-se entre a fabulação alegórica e a crítica social direta.

Os homens dos pés redondos é também lido, frequentemente, como alegoria do Portugal salazarista (1933 a 1974) e, simultaneamente, como máscara da realidade brasileira da década de 1970.

Então, vemo-nos na antes pujante Ibéria de Dom Afonso, lugar imaginado por Antônio Torres, agora povoada por “homens cabisbaixos”, humilhados e achatados pela opressão de um Estado de governo totalitário, onde os cidadãos orbitam eternamente e sem esperança em torno de si mesmos até ficarem “de pés redondos”.

Se a literatura engajada de Torres denuncia, ela o faz pela via da alegoria, do “excesso” necessário, da fabulação inquieta; nunca pela simplicidade esquemática. A obra se sustenta porque entende que a crítica social, para não se tornar balofa, precisa estar ancorada em personagens complexos, em experiências contraditórias, em camadas de leitura que não se esgotam na chave política.

O romance-tensão: personagens entre o grotesco e o humano

Um dos melhores personagens do romance é o lugar, a atmosfera, Ibéria. É um tipo de interior “interiorizado” por Antônio Torres em praticamente boa parte dos seus romances, como em Querida cidade (2021). O traço está em Essa terra (1976), O cachorro e o lobo (1997) e Pelo fundo da agulha (2006). Nesses todos, a palavra-chave pode ser “nostalgia” ou “retorno”. Um lugar para onde se voltar ou fugir. Nessas obras cabem, ainda, as ambivalências desejo/punição e familiar/infamiliar, e nessa oscilação se monta a atmosfera do Os homens...

A Ibéria de Torres, de “passado glorioso e futuro duvidoso”, é uma reverberação de Portugal sob a ditadura de Salazar, à percepção de um autor que morou no país na década de 1970. Ali, começou a escrever o romance. Gastou dois anos procurando ou lustrando o primeiro parágrafo: “A julgar por ele, todos aqui são homens sem mulheres, porque as mães de seus filhos não contam”. É nesse “cosmo” que os protagonistas de Os homens... : Manuel Soares (de Jesus), Adelino Alves e o Estrangeiro, entre outros tentam a vida. Sob a figura caricata de El Rey, governante invisível cercado por ministros áulicos de um único partido e por rituais públicos e teatrais, aparecem os sintomas da arbitrariedade, miséria moral e vigilância de um Estado profundo, que atravessa o cotidiano de homens que apenas buscam sobreviver.

Manuel Soares é uma mistura de frustração, impotência e precariedade que contamina a classe média baixa. Um desenhista que planeja matar o chefe.

Adelino Alves, o escritor-chefe, é, do meu ponto de vista, o sujeito mais asqueroso: ele funciona como ponte entre a intelectualidade sufocada e a burocracia estatal.

O Estrangeiro é outra figura tão detestável quanto admirável. Se Mary Shelley (1797-1851) criou seu humaníssimo Frankenstein, o Prometeu Moderno, Antônio Torres criou seu Estrangeiro, o Proteu Moderno, esse tipo de gente metamórfica e muitas vezes oportunista com quem convivemos o tempo todo. Desses grotescos proteus, aplaudimos a capacidade de se reinventar, “para aquém do lagarto remexidamente”, como diria Fernando Pessoa (1888-1935), monstros da adaptabilidade, do oportunismo, sem nenhum escrúpulo às fronteiras éticas e sociais.

O romance e sua arte de envelhecer

Um dos aspectos mais ricos desse romance, ainda, para mim, é o quanto ele problematiza a técnica, a estrutura e os limites da narrativa. Na forma como a literatura denominada engajada se faz mais pela sátira e pelo deslocamento. De como o engajamento de Torres se expressa por meio da alegoria, do humor sombrio, do grotesco e do delírio narrativo.

A própria caracterização de Ibéria, não simplesmente um lugar, uma velha prostituta homônima, capaz de oferecer aos turistas o espetáculo e as carnes de sua profunda miséria, é exemplo de como o livro opera politicamente sem bocejos discursivos.

Os homens dos pés redondos é romance com uma lição aos mais novos leitores (e talvez a novos escritores e escritoras, se esses e essas já não souberem de tudo): de como a literatura, engajada ou não, mantém força justamente quando não se rende ao literalismo: quando sabe que alegoria, invenção e fabulação permitem dizer o que não pode (nem deve) ser dito frontalmente, nesse jogo da literatura do que será-que-será: “O que não tem governo, nem nunca terá/ O que não tem vergonha nem nunca terá/ O que não tem juízo”. Ou, como apontou um crítico da Veja daqueles anos 1970, Torres evitou com sabedoria cair na armadilha da “solidariedade panfletária” onde “fracassaram incontáveis Guevaras juvenilmente esfacelados pela falsa estratégia de um lirismo incontido”, e que, agora digo eu, arruinou outros escritores iniciantes, depurando o impulso político em algo mais tenso, mais irônico, mais fértil, literário, mas sem-literatura-demais.

A permanência de Os homens dos pés redondos se dá não porque o livro denuncia, mas porque imagina, sem se manter nos chavões das imagens-feitas. Poucas formas de resistência são tão duráveis quanto esta. O publicitário Antônio Torres aprovaria essa última frase. Ela tanto serve para a porcelana da Pyrex, como para a literatura inquebrável.

Mais de 50 anos após sua primeira edição, Os homens dos pés redondos está vivo. Não apenas pelo que representa no panorama da ficção brasileira e lusófona, mas porque continua a convocar leitores a refletirem sobre o que a literatura pode fazer quando escolhe enfrentar a realidade, sem abdicar da forma, da imaginação ou da linguagem. Além disso, confirma que a literatura engajada só tem força quando aceita a própria complexidade. O livro e o seu autor souberam envelhecer muito bem.