Cada livro tem várias histórias. Quando surgiu o convite para escrever sobre a nova edição de Tempo de Arraes, de Antonio Callado (Casa Matinas, 2025), resolvi ir direto a Arraes, através de José Almino. Fomos colegas de turma. Em 1964. Na Faculdade de Direito do Recife.
Mas o fio da história está em outro tempo. Com Arraes eleito governador em 1962. A primeira vez. O país vivia tempos turbulentos. João Goulart na presidência da República. Após vencer o período de Parlamentarismo de conveniência. Ideia do deputado Tancredo Neves, para superar a resistência dos militares. Em 1961. Que não admitiam Jango no presidencialismo puro. Substituindo Jânio Quadros. O qual renunciara à presidência. Com seis meses de gestão. O Parlamentarismo durou um ano. Revogado por plebiscito popular.
Goulart empunhava a bandeira das reformas de base. Reforma na educação, na saúde, nos impostos. E a reforma agrária. Aí a coisa pegou. O bloco oposicionista ganhou o apoio dos proprietários de terra. E Jango não contava com apoio militar para viabilizar o programa reformista. Bem mais largo do que a base social que o sustentava.
O livro do jornalista Antonio Callado, Tempo de Arraes, pode-se dizer, contém quatro livros: uma visão de Pernambuco, uma visão de Arraes, uma visão do Brasil e uma visão do futuro.
Uma visão de Pernambuco
A primeira vez que Antonio Callado visitou a Zona da Mata de Pernambuco foi em 1963. Engenho Galileia. Experiência de reforma agrária. Cooperativa de produção. Vista assim (Tempo de Arraes, editora Civilização Brasileira, Rio, 1967): “Uma nova safra de homens. Amparados no novo Estatuto do Trabalhador Rural e na Tabela do Campo. Sindicalizados, recebendo salário-mínimo e correção salarial”.
De acordo com Callado, Pernambuco era laboratório de experiências sociais. Lá, tudo era novo. Acelerado. E empírico. A questão social não era mais caso de polícia. As forças conservadoras controlavam muito. Não protestavam tanto. Não estavam furiosas com o governo. Mas não aprovavam Arraes.
Nesse quadro, penso que é possível ressaltar existisse em Pernambuco consciência de que as coisas precisavam mudar. Que a miséria tinha que ser enfrentada. De forma eficaz. Com políticas públicas claras.
Penso que a fração mais esclarecida da elite pernambucana se impacientava com a estagnação econômica. Que era necessário transformar o cenário na direção do crescimento. Que o que se fizera com a desapropriação do engenho Galileia, no governo Cid Sampaio, foi investimento consensual em favor da ordem vigente. Tentativa de apagar fogo de revolta. Recorde-se que Francisco Brennand, o grande escultor, de tradicional família pernambucana, foi chefe de Casa Civil do primeiro governo Arraes.
Naquela quadra, o xadrez político só aparentemente estava dividido entre direita e esquerda. A situação era mais complexa. Porque, além dos políticos, havia padres (a Igreja), sindicatos (os trabalhadores), militares (IV Exército). E profetas, sagrados e profanos. Padre Melo, padre Crespo, Francisco Julião, Gregório Bezerra e Rui Cardoso. José Almino, em discurso no Congresso Nacional, no centenário de Arraes, disse que ele nunca afagou utopias.
Uma visão de Arraes
José Almino acentua que Arraes não era político de corte tradicional. Preocupado só com articulação, conversa, negociação. Não. Arraes era também homem de resultado. De ação. De transformação. Diferente de outro líder da esquerda de então: Francisco Julião. Este, sim, um político convencional. Ocupado em tratativas. A propósito, José Almino diz que considera Arraes um saquarema de esquerda. Como se sabe, no Império, a política brasileira se dividia entre saquaremas, os conservadores, e luzias, os liberais.
Um dos episódios mais emblemáticos desse espírito do fazer de Arraes, é o Acordo do Campo. Quando ele, governador na primeira vez, reuniu, em torno da mesa principal, no palácio do Campo das Princesas, usineiros e trabalhadores. Foi encontro histórico no qual lavrou-se o entendimento sobre salário. Ajuste que contribuiu para distensionar as relações sociais na Zona da Mata.
Significa dizer que Arraes defendia um Estado indutor do desenvolvimento? Lembrei de Getúlio Vargas. A meu ver, o fundador do Brasil moderno. E de sua assessoria econômica. Com Rômulo Almeida e José de Jesus Pereira. Perguntei a José Almino se Arraes se filiava a essa linha. Respondeu que sim.
Uma das grandes preocupações de Arraes, conforme Callado, era com os pequenos proprietários. Foreiros e meeiros. Que não tinham condições de acesso à rede bancária. Ao Banco do Brasil. Atuou nessa direção. O ambiente político, em parte, assumia outra feição. Por exemplo: Atos Costa foi eleito prefeito de Quipapá contra a vontade de Fernando Pessoa de Melo, dono da usina Água Branca.
Uma visão do Brasil
Na perspectiva nacional, Callado é direto: o Brasil é um país tão tímido que não tem história. Só tem golpes. O grande Partido político no Brasil é o Exército. Para não ser assassinada, a democracia brasileira se suicida. O Brasil é uma nação que pode ser governada por analfabetos que não sejam eleitos por analfabetos.
E, segundo Callado, Pernambuco tomou nojo do país, da sua timidez. Para o autor, Pernambuco virara laboratório social. Tudo era novo aqui. Com os comunistas impacientes pelo papel atuante da Igreja. Levando os trabalhadores para os sindicatos. E a introdução do método Paulo Freire de alfabetizar, disseminado. Por meio do Movimento de Cultura Popular - MCP. Com uma loja, parecendo uma gaiola, no acesso da ponte da Santa Isabel. Sucesso. No Brasil. E no exterior.
Segundo Antonio Callado, o padre Melo dizia que as massas brasileiras não tinham quadros para empreender transformações sociais. Nem educação. Mas, tinham muita flama. Callado referia que Francisco Julião era, ao seu modo, otimista. Mencionando que, se a situação dos camponeses continuasse melhorando, eles não iriam para o Partido Comunista. O processo de sindicalização avançava mais. O maior dos sindicatos era o de Palmares, na Mata Sul. Com 35 mil sindicalizados. A lei trabalhista chegara à cana. As feiras interioranas na Mata fervilhavam. Com ampliado consumo das famílias dos canavieiros.
Para Callado, Pernambuco, com suas Ligas Camponesas, seus comunistas, seus padres, tomou nojo da estagnação econômica em que vivia. Em que vivia o Brasil. Segundo ele, há caminhos para sair da estagnação sem violência. Se forem obstruídos, a violência vem.
Uma visão do futuro
O poeta Fernando Pessoa disse que o mito é tudo que é nada. Por isso, seria um erro admitir Arraes como figura mitológica. Arraes tinha um estilo. E alguém já afirmou que o estilo é o homem. Arraes esmerilhava o tempo. Não forçava chances. Nem as desperdiçava. E respeitava os fatos. Quando foi eleito deputado estadual, era hábito dos parlamentares usar revólver. Um dos filhos de Arraes indagou por que ele não utilizava arma. Ele sorriu e respondeu: “Não preciso. Todo mundo sabe que eu não uso”.
Nos processos a que Arraes respondeu, não se encontrou nenhum traço subversivo. Ou indício de corrupção. A transparência, ampliada nas lentes da ditadura, é uma certidão moral. A obra de homem público é como bem cultural: material e imaterial. Arraes, em 1964, foi tirado do palácio treze meses após tomar posse. Mas ficou a impressão de que sua administração viveu cinquentenária. Porque seu maior legado foi um conceito de política. Uma carta ao futuro. Atualíssima. Voltada para anunciar dois valores: ética e justiça.
O Brasil vive, no século XXI, momento de ambiguidades. Onde prevalece emenda parlamentar secreta. E parlamentares tentam aprovar, no Congresso Nacional, lei para proteger crime. Neste vértice surreal, escrever sobre o livro de Antonio Callado é falar sobre desafios que virão. Nas auroras deste chão tropical.